Data da publicação: 20/04/2006
Como um ser vivo pode brotar
de um chão mineral?
Desse branco que é gelo e febre.
(João Cabral de Melo Neto)
Foi com desvelo pleno que lancei meu olhar sobre FANTASIA VIVA, e – perscrutando, com vivo encantamento, envolto em natural frisson – fui lendo e relendo este belíssimo livro inaugural do bardo Durval Filho: um legítimo semeador de emoções, um engravidador de palavras, um proficiente paridor de versos que há muito vem se destacando no nosso meio literário, provando que nasceu com a dádiva informe da fértil inspiração, a qual adorna-lhe o cotidiano, irriga-lhe as artérias e move continuamente o comboio dos seus sentimentos pelos fios dourados da Poesia.
Comprometido com os desígnios da Literatura e da Educação, o jovem poeta e professor Durval (sabem-no os que o conhecem) tem mostrado que é um autêntico entendedor dos arcanos da estesia, pois traz, permanentemente estigmatizada no âmago, a marca notável do talento nato. Traz a vocação com nobreza e a grã magia das messes idílicas num ritmo melódico-fascinante que impregna de leveza as faces do seu peculiar modus poetandi.
Senhor do seu ofício, impressiona pelo poder intertextual de criação, elegância vocabular, valorização do fonema, vibração harmoniosa do verbo e vigor substantival. Destarte, perseguindo o incomum, buscando o inusitado e fugindo do usual, o autor – ora lírico, afável, ora irônico, irreverente, sublevado, ou mesmo introspectivo e filosófico – vai registrando em Fantasia Viva, com sutileza, originalidade, opulência de idéias e primorosa fidelidade à artesania poética, temas que se amalgamam com as sensações mais recônditas, propiciando aos seus leitores o místico sinete para uma fascinante viagem pelas sacrossantas sendas incognoscíveis da beleza.
Possuidor de estilo terso, Durval Filho vem – nesta publicação, por intermédio do seu latejar inventivo e metafísico – presentear-nos com uma obra densa, envolvente, eclética, gestada com afortunado zelo e dividida em três partes (ou Partos): I Parto (um lirismo latente, reflexão, saudade e amor...); II Parto (uma certa indignação, apelo social, crítica e fé); e III Parto (existencialismo, multiplocentrismo, um tudo do nada...).
Certa vez, numa entrevista, o menestrel “Pinto do Monteiro” – que foi o maior cantador repentista que habitou as plagas nordestinas – definiu simbolicamente o ser-Poeta como sendo “aquele que tira de onde não tem e põe onde não cabe”. Pois bem... Valendo-me agora da essência conotativa deste pensamento, afirmo que esta assertiva enquadra-se, com precisão, no potencial literário do inspiradíssimo Durval.
Poeta superlativo, domina e sabe efetivar o seu mister, num perfeito conúbio com o idioma com que trabalha, sintetizando a fórmula inesperada de grandes rebentos estéticos e constituindo conscientemente sua arte enquanto signo essencial de si mesmo. Assim, além de insculpir plectros admiráveis ancorados nos tópicos universais, o autor de Fantasia Viva ostenta também o especial dom de extrair – com sua axiomática riqueza perceptiva – diferenciados efeitos poéticos ora de temas aparentemente estéreis (verbi gratia, nos poemas “Consumismo” - pág. 49, “Caretas” - pág. 54, e “Bolinha de Sabão” - pág. 106), ora de temas que, para alguns, já podem parecer extenuados (como em “Um Sorriso” - pág. 30, “Desabafo” - pág. 69, “Esquecimento” - pág. 98, e “Mistérios” - pág. 103).
Resgatando o sabor buliçoso das evocações e as vivências ternas arrastadas pelas correntezas inelutáveis do tempo, Durval Filho enfeixa na primeira seção do livro (I Parto) 23 poemas cuja temática preponderante é o amor, como podemos constatar nesse fragmento de “Matemática dos Corações” (pág. 26): “... Basta de você resistir / Se está escrito por nós dois / Uma história de amor. / Por que tanto esperar? / Não acredito ser ilusão / De um audaz perdedor / Querer dormir ao seu lado, / Dividir espaço na procura do prazer / Chegando ao resultado: ...”.
O assunto tem realce e continuidade em “Ao Meu Amor” (pág. 23), “Seduzir da Conquista” (pág. 24), “Cilada do Destino” (pág. 27), “Tudo Passa” (pág. 29), “A Vida Eclode” (pág. 32), “À Musa Eleita” (pág. 33), “Maria Bonita” (pág. 42) e “Corpo em Chamas” (pág. 43). Tudo, de uma forma ou de outra, convergindo para aquela citação de James Baldwin: “Não é comum morrer de amor, mas neste momento, em todas as partes do mundo, milhões morrem por falta dele”. E se – como ensinou Dante – o sol e as outras estrelas são movidos pelo amor (“amor che move il sole e l'altre stelle”), ele também exorta de Durval a inspiração: “... Peço a Deus que me dê o amor da musa eleita; / Seus afagos e beijos / E a certeza do amor partilhado / Para juntos compormos um poema / Vivido a dois e não simplesmente sonhado”.
Ressalte-se ainda que neste primeiro segmento da obra, logo na primeira página, temos o magnífico metapoema “A Tentação do Branco”, que traduz, bem ao puro estilo cabralino (de maneira lúcida e concreta), a tessitura do iluminado psicodinamismo do poeta envolto na sua instintiva missão de escrever: necessidade visceral de assediar e desvirginar a folha casta, para – após fecundá-la na plenificação do clímax, sem onanismo – cortar o cordão umbilical da sua criação: “Incrível como é tentador / O alvo e líquido frescor da cor. / Quando vejo / Não resisto à tentação / E rabisco tudo / E escrevo... / (...) / No dia do parto / O branco em metamorfose / Torna-se moldura do pranto / Findando ao êxtase da criação”. A propósito, Rilke já preconizava – no início do século passado – que o poema-gerado é um ser que se desata do seu genitor como a criança que se desprende do seio maternal.
Em “O Poeta e o Leitor” (pág. 21), Durval Filho aborda, com maestria, a amplitude transcendental do uni/verso real-imaginário gerado através da relação côncava/convexa que se estabelece pelo movimento dos signos em busca de significação: a dinâmica natural do poema, que – não obstante a sua indivisível acepção ou a gestalt do seu criador – pode ganhar múltiplas vias de sentido (espectros polissêmicos no tempo-espaço), ao ser processado nesta subjetiva interatividade bipolar inspiração/interpretação (escrita e leitura) ou imposição/recepção (agente e legente).
Não se esqueceu o autor de homenagear, neste compêndio, a urbe que o acolheu, a bela Cidade Morena que hoje o abraça na geografia das suas arborizadas ruas. Dessarte, à pág. 40, temos o poema “Campo Grande”, que – em versos livres terminados em forma de acróstico – exalta as características da capital sul-mato-grossense: “É especial a cidade onde moro, / Lá corre fluxo de sangue / De pessoas / Nas veias das avenidas”.
Já em “Rio Claro” (pág. 41), também inserido no I Parto, iremos encontrar o poeta mergulhado numa saudade ontológica em relação à sua terra natal (uma espécie de cisão existencial). Aqui – referindo-se à cidade paulista que lhe serviu de berço, mas não lhe viu crescer – ele transborda exatamente o efeito daquela advertência de Platão: a gente só se lembra daquilo que a memória guarda como um ser vivo, no espaço ou no tempo do nosso próprio ser. Com efeito, expressa lânguido telurismo, num elegíaco sentimento de vazio, na deslembrança do ser ou na lembrança de um não-ser: “Como eu posso cantar / A cidade que me viu o parto? / Se na parte alusiva / À memória eu parti / Bem cedo, antes do entardecer”.
Durval Filho inicia o segundo excerto deste seu livro (II Parto, que abrange 36 composições poéticas) revelando a sua irresignada mundividência perante a incessante degeneração da humanidade e os problemas sociais (e também políticos) do seu tempo. Em “Uma História e seu Enredo” (págs. 45, 46 e 47), que é um relativamente longo (e absolutamente maiúsculo) poema, o autor desabafa:“(...) O mundo mudou, / As pessoas idem, / Eu, mudo no mundo, / Grito com meu poema e escuto um eco. (...)”. Nesta poesia, o autor confirma mais uma vez as suas qualidades de bardo exímio, haja vista que – com fluência e técnica – elabora uma forte peça literária encerrando um coerente enredo de assuntos encadeados: a massificação, o globalizado materialismo econômico, as desigualdades sociais, o individualismo, a estúpida beligerância incontrolada, os preconceitos e o desamor, as dores mundanais.
Na dialética “eu x orbe”, na linha daquele pensamento drummondiano: “tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo”, o nosso vate – com aguçada sensibilidade – continua ressumbrando, em vários poemas, a sua indignação e o seu inconformismo com o taedium vitae provocado pelas discórdias, desequilíbrios e descalabros que conspurcam os nossos dias e dilaceram as nossas expectações. Este desdouro mundano, mesclado com uma certa sensação de perda e de impotência humana diante do caos, podemos atinar em “Povos” (pág. 48): “... A história, até hoje, repete / Guerras, conflitos. / E o caldo entorna, / Manchando os olhos / De quem pondera. / Pudera ter poder / Para apaziguar a terra em guerra.”; e em “Quebra-cabeça” (pág. 85): “Fundir a cuca, / Procurar algum meio. / Sobreviver em meio à tormenta / De um mundo que ninguém agüenta: / Corrupção, inflação, assaltos. / E tantos mais...”. O tema é explicitado também, com propriedade, em “Educação – Bandeira de Luta” (pág. 50), “Caretas” (pág. 54), “Feixe de Gente nas Mãos do Mundo” (pág. 56), “Alegrias Artificiais” (pág. 63), “Sonheto” (pág. 65), “Violência dar o basta” (pág. 68), “Desabafo” (pág. 69), “Omissão” (pág. 71) e outros.
Contudo, o poeta – no seu contínuo exercício de fé – vislumbra a possibilidade de ainda recuperar esse tempo perdido e a paz. Mas, adverte: “Nesse enredo construído pelo ser humano, / Caso não se corrija o rumo, / A história não terá final feliz / E tudo se acabará num enorme ranger de dentes”. E, proclamando a primazia do espírito sobre a matéria (o rompimento homem-mundo), professa: “Para que isso seja possível / É fundamental o conviver sem preconceitos, / Acabar com as barreiras, / O reformar dum amontoado de gente / Que deveria aceitar as diferenças / Baseando-se no maior exemplo deixado / Por um Homem-Deus-Espírito / E seguir apenas a lei divina”.
Esta concepção epifânica (Deus, fé), a exemplo do que ocorre na poesia de Adélia Prado, é assunto empregado enfaticamente em várias composições de Durval Filho. Certamente, ambos pensam como Clarice Lispector: Deus repleta o ser.
A terceira e última seção (III Parto) colige um bloco de 21 poemas de tematização vária, com destaque aqui para os que abrigam um “eu-poético” preocupado com as mazelas cotidianas, na ótica da dolorosa realidade. Nesta parte, o leitor defrontar-se-á com o segmento mais veemente da dosagem metalingüística espargida na obra (máxime os textos “Monólogo: Fragmentos Poéticos (I)” - págs. 89 e 90 que é um típico caso de intertextualidade homo-autoral, uma vez que cita e absorve versos e até estrofes de outros poemas desta mesma obra; “Intertextualizando” - págs. 91 e 92; “Enjôo Poético” - págs. 93 e 94; “Susto” - pág. 99; e “Fantasia Viva” - pág. 112, que fecha e dá título ao livro).
Em alguns destes poemas de infaustas tonalidades existenciais, o poeta insere-se no palco dos acontecimentos, vivenciando cada cena, absorvendo cada desalegria e deglutindo cada bocado de amargor servido nos bandejões dos banquetes da vida. Nesta cosmovisão direta e contemplativa (de dentro para fora), o narrador – revestido do embasamento de T. S. Eliot, que consolida a mente do poeta como um receptáculo, um meio, um catalisador – não tem outra alternativa, a não ser compor versos do tipo: “No limbo das impurezas / Encontrei meus escombros / Decompondo-se de mim...” - Monólogo (pág. 89); e “... Olhei mais claramente e entendi / Que o mundo novo, sobrenatural, / Nada mais é que nossa própria vida real”. - Mundo Novo (pág.96). Temos, em alguns trechos, uma certa evocação tanatológica a delinear o usus scribendi do autor, como notamos em “Às Avessas” (pág.97): “Comecemos pelo final, / Finalmente... / Agora que tudo acabou / A morte ceifou a vida / O filho tornou-se órfão”; e em “Fantasia Viva”: “Do monturo à vida / Nascem sonhos novos / Que se fortificam. / E eu morro... / (Morro de montanha!?) / Montanha de monturo”.
A Poesia, como preconizou Heidegger, é uma linguagem do ser. Por sua vez, Manoel de Barros afirma que “Poesia é ocupação da palavra pela imagem; é ocupação da imagem pelo Ser”. Assim, Durval Filho, especialista que é também na arte fotográfica, deixa transparecer naturalmente, na sua verve, a sua identificação com a imagem e com as paisagens que habitam seus poemas. Esta relação da poesia com a múltipla visualidade podemos perceber nos seguintes poemas: Astro Rei (pág. 53), Luz e Formas (pág. 80), e A Foto (pág. 100).
A poesia durvalina é um fecundo estuário onde se encontram águas puras e diversas, correntezas lustrais de plectros que fazem com que o leitor, fascinado com este vívido panorama, possa mergulhar seguro neste caudal de bonança e de fulgor.
Em síntese, temos em Fantasia Viva uma produção multímoda, que vai desde uma linguagem essencialmente poética livre, em versos brancos, de transtextualidade, metaforizada, simbólica, passando também por dois sonetos (págs. 65 e 105), um poema de belos efeitos gráfico-visual e semântico (pág. 87), uma trilogia de haicais (pág. 104) e três poesias em ABC (págs. 108, 109 e 110), até uma poemática de linguagem um tanto quanto prosaica. Entretanto, em todo o conjunto temos literatura de primeiríssima qualidade, uma concepção expressa em seu sentido mais amplo, sublimando e corporificando as profusas perspectivas imaginárias do signo lingüístico em conjunção com a realidade, unindo autor e leitor a um jogo atemporal de significâncias polidimensionais, excitando-e-exercitando o universo sensorial de cada um e fazendo-nos enxergar além do óbvio (que mo digam depois os leitores).
Penso que este livro de Durval Filho surge numa boa hora, no momento certo, renovando o ar poético-cultural contemporâneo, haja vista a sua consistência, vitalidade, limpidez e seriedade, fatores que credenciam sobremaneira esta obra literária. E isto – é bom que se diga – é sempre uma notícia alvissareira, diante da atual escassez de bons valores neste campo das artes. Mas, felizmente, os legítimos filhos de Minerva sempre apontam no horizonte, conquistando o seu merecido reconhecimento, após uma série de batalhas travadas ao longo do cotidiano. Este livro vem para firmar o nome do seu autor num lugar distinto no quadro atual da poesia sul-mato-grossense.
Por tudo isto – envolto nas mais harmoniosas dádivas da alma e relembrando o Menestrel de Itabira – exprimo com júbilo: “Vai, Durval, ser poeta na vida”.
Campo Grande (MS), outubro de 2005.
RUBENIO MARCELO
(Membro e Secretário-Geral da
Academia Sul-Mato-Grossense de Letras)
rubeniomarcelo@hotmail.com
Prefácio do livro Fantasia Viva, de Durval Filho, publicado em 2006. Campo Grande-MS.
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