Poesias selecionadas

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FANTASIA VIVA
(de Durval Filho)

Li alguns versos tortos
De poetas mortos...
Alucinante fantasia viva.
Eu, vivo, de poesia morta
Por mais que procure
Não a encontro.
Onde estás, não a vejo,
Ó lampejo de vida curta!
Partiste e me deixaste na rua!
Sinto-me um órfão
Que vive e respira o teu carisma.

Caminho sem parar,
Sigo um caminho desconhecido
E só o encontro
Quando o julgava perdido.

Do monturo à vida
Nascem sonhos novos
Que se fortificam.
E eu morro...
( morro de montanha !? )
Montanha de monturo.


MONÓLOGO: FRAGMENTOS POÉTICOS ( I )

(de Durval Filho)

No limbo das impurezas
Encontrei meus escombros
Decompondo-se de mim...

No deserto da obscuridade
Nas areias formam montes
E nos montes secam ossos.

Os minutos passam
Formando as horas
E estas os dias e anos;
Que matam a vida...

Luz... Pigmentos de sons,
Fé implode no peito
Aflorando o desejo.

Os desejos são tamanhos
Que ultrapassam a razão...
Tanto querer sem poder,
Morrem-se agonizantes os lindos sonhos.

É tudo feito de pureza
Lembrando a cor da paz

A vida esvaziou-se,
Tornou-se pó!
E ao preceito voltou,
Ao pó de antes...

Evolução, evolução, evolução,

Avalanche dos sonhos meus...
Anjos audazes avoantes,

Que nada detenha suas línguas
Até que tudo seja dito.

As pegadas são muitas;
Umas vêm, outras vão,
Mas a verdade é que todas ficaram
Gravadas na areia ao chão.

A morte ceifou a vida,
Viveu dormindo boiando no lodo...
Sombra da esquina pedindo socorro.

Denunciem a estupidez
Com línguas de fogo.
Aí vem a injustiça
E mata-nos sem culpa.

Nessa morte enxergamos
O real da vida, sem enganos,
Que cresce no íntimo de todos
E finda-se lentamente ao passar dos anos.

Do monturo à vida
Nascem sonhos novos
Que se fortificam.
E eu morro...
( morro de montanha!?)
Montanha de monturo.



O VELHO E OS POMBOS
(de Durval Filho)

Sentado na escadaria
De um ponto qualquer
O velho pensa...
E os pombos alimentam-se
Das migalhas do que passou.

Os minutos passam
Formando as horas
E estas os dias e anos,
Que matam a vida...

O velho brinca
Desajeitado com os pombos,
Na sua velhice
Ele brinca feito criança.

Os pombos voam
E seus pensamentos também...

Interessante como os pombos
Prestam atenção,
Observando o ancião
Que discursa silencioso.

E os pombos comem até fartarem-se
Das migalhas do que o velho pensou...


A TENTAÇÃO DO BRANCO
(de Durval Filho)

Incrível como é tentador
O alvo e líquido frescor da cor.

Quando vejo
Não resisto à tentação
E rabisco tudo
E escrevo...

A folha branca de papel
É violentada.
Torna-se cheia,
Como a grávida;
Mas diferente,
Cheia de códigos de gente:
Fragmentos de loucuras;
Pitadas de dor e ódio;
Mel de amor;
Infinita consciência inconseqüente
Vinda do subjetivo, inconsciente...

No dia do parto
O branco em metamorfose
Torna-se moldura do pranto

Findando ao êxtase da criação.


INTERTEXTUALIZANDO
(de Durval Filho)

O tema gasto saiu capengando
De tanto uso.
Disse o médico que ele sofre de doença
Generalizada: epidemia do abuso; diagnostica.

Os sábios críticos o aposentaram,
Os novos não o conhecem a fundo.

E o velho tema corre um sério risco...
Caminha para a morte?
– Se expresso com arte sobreviverá,
Eternamente,
Graças ao encantamento...

Clássicos de Camões a observar o mundo,
Borrasca do barroco: Aleijadinho expressa
Rugas de arte na dor das sombras.

Dirceu com a sua lira canta Marília,
Castro Alves voa com o Condor,
O social, o amor, o romantismo,
José de Alencar e tantos mais.

O Machado que corta com a ironia
O realismo do dia-a-dia e expõe as mazelas,
O Cisne Negro mergulha no inconsciente
Até aflorar na consciência dos nacionalistas
Uma luta pelo que é nosso...

Monteiro Lobato, que não é lobo mau,
mas papou a Malfatti,
Lutou pelo petróleo e contra o parasita;
O Jeca que o diga!

Vieram os modernistas: Oswald, Mário, Bandeira,
Drummond, com a pedra e tudo no meio,
Jorge Amado que amou o nordeste,
Graciliano, a Queiroz, Vinícius, Cecília,
Nomes maravilhosos que se somam
Aos gênios de Guimarães Rosa e Clarice Lispector
E mais todos os atuais escritores contemporâneos.

O velho tema não morre, renova-se
No Barros que o envolve, por exemplo,
A serviço do fantástico
Mundo desordenado do caos poético,
Alongador de idéias a serviço do saber.

Se expresso com arte sobreviverá...


ENJÔO POÉTICO
(de Durval Filho)

A poesia perdeu a ingenuidade
Das lamentações melosas
Depois que foi amada por Drummond,
Bandeira, Cabral e tantos outros.

O desejo, a libido,
Apelido...
A poesia violentou-me o instinto,
Quis-me mais ousado, abusado...
Para gerar um novo estilo
Que cresce na barriga mente:

No quarto mês de espera
Sofri de enjôo poético:
Amor sublime;
Beleza;
Exclamação que só redime...
– Dedo na garganta – um alívio,
Passou a ânsia, o pesadelo...
Ainda bem! foi só enjôo
Precedido de vômito que se finda.

O nascimento de um novo poeta
Entranhado no casulo do velho
Que vive em mim
É conflitante
Como o conviver de dois estranhos.

Sinto a falta do malandro de Carlitos,
O valor poético e libertador de um Lennon,
A humildade de Cristo.
E, na poesia,
Cadê os que amam o ínfimo,
Além dos citados e do Barros...
Cadê as expressões dementes
Que instalam o conflito:
Moldura de gesso que reflete o impossível.
Grande interrogação invertida,
Um anzol de pesquisa
A favor dos que buscam
Experiências na vida.

Estou à procura
E de barriga prenha.
Ajudem-me no parto!

Doutor,
Onde está a poesia moderna
Para parir meus sonhos?
Onde fica a imaginação
E o gozo de quem gosta de ler?
Onde fico eu no meio disso tudo?...